Totalitarismo é uma palavra difícil e quase não pronunciada fora das escolas e universidades no Brasil. Poucas pessoas conhecem seu significado quando citado seu nome embora reconheçam movimentos como fascismo, nazismo ou o comunismo soviético. Assuntos que alguma vez na vida já 'ouviram falar'. No entanto o blog vai se aprofundar neste tema de modo que os leitores possam fazer uso dessa palavra do modo mais crítico possível partindo dos estudos da pessoa que mais os estudou, a historiadora Hanna Arendt.
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| Hanna Arendt |
Hanna Arendt foi uma historiadora e filósofa alemã de origem judia que vai sofrer com a questão da perseguição nazista na Alemanha de sua época. Com a ascensão do ditador Adolf Hitler ao poder em 1933, os judeus foram colocados na ilegalidade e perseguidos por diferentes leis discriminatórias e todo tipo de violência possível até a revelação do genocídio do Holocausto. Este foi o extermínio sistematizado e industrial de seres humanos em câmaras de gás, fuzilamentos, forca, fome e diferentes maus-tratos nos chamados campos de concentração e extermínio, projetados para essa finalidade.
Os seguidores da religião judaica foram as maiores vítimas desse crime com cerca de 6 milhões de pessoas assassinadas.
No entanto, como Adolf Hitler conseguiu convencer o povo alemão dos anos 20 e 30 de que ele era sua 'melhor' opção de governo? Como Mussolini conquista o poder na Itália ou Stálin é aclamado na União Soviética?
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| O primeiro regime totalitário reconhecido é o fascista na Itália |
Totalitarismo - O Estado acima do Indivíduo
Nos regimes totalitários as pessoas precisam obedecer ao líder ou ao partido acima de suas próprias convicções morais. Se for exigido matar ou roubar para atender a vontade do líder, que faça! Hanna definia que a capacidade de pensar das pessoas sob um regime totalitário era limitada ao ponto de perder sua razão e raciocínio próprios deixando-se dominar pela propaganda e demagogia do líder. Esse aliás fazia o culto à personalidade. Essa é uma das características básicas do totalitarismo, o líder se colocar acima do povo e ser seu ''salvador'', ele traria a esperança de que precisam. Ele se coloca quase como uma divindade, um Deus em alguns casos. Foi exatamente com esse slogan que Mussolini e Hitler convenceram seus povos.
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| O 'culto à personalidade' , característica marcante dos regimes totalitários |
De acordo com ela existiam dois tipos principais de abordagens para qualificar o povo dominado pelo regime totalitário:
Massa
São a maioria da população de um país e que não têm interesses em comum. São pessoas que vivem suas vidas e não precisam se unir em prol de um objetivo maior : mas como isso funciona?
Geralmente as nações se unificam sob uma língua ou cultura comum para se reconhecerem como iguais, inclusive foi assim com a Alemanha e Itália em 1870. É um processo que acontece durante as independências, se nos libertamos de um país que nos dominava precisamos agora ter algo em comum para nos reconhecer, por isso a língua e a cultura de um povo, sua bandeira, hino e etc, cada um tem o seu. No entanto, basicamente, as massas de Hanna são pessoas 'normais' que agora não compartilham mais os sentimentos que antes os uniam.
Ralé
Importante destacar que no Brasil a palavra ralé tem um sentido bem negativo significando pessoas grosseiras ou de comportamento degenerado ou, em alguns casos, as pessoas das classes sociais mais baixas. No entanto segundo a proposta de Arendt a ralé são as pessoas que não têm mais vontade própria e são dominadas pelo discurso do líder, da propaganda e de uma intensa lavagem cerebral. . Elas seriam 'desprovidas de sentimento político' explicando a sua 'alienação' em relação ao tema. Isso os tornavam presas mais fáceis aos discursos de líderes que reivindicavam poder, glória ou justiça para uma suposta humilhação que havia os atingido. Foi assim que Hitler ou Mussolini conquistam a adesão do povo aos seus projetos de governo: 'o totalitarismo mina a essência do homem'' como colocava a Arendt.
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| Hitler chega ao poder total em 1933 na Alemanha. O braço levantado era sinal do fascismo e da antiga saudação romana introduzida por Mussolini |
Mussolini tinha um discurso 'carismático' que evocava a glória do antigo Império Romano , um local de onde ele vai tirar sua inspiração para o nome fascismo e até a saudação romana que vai ser incorporada por Hitler no nazismo. A Itália havia sido iludida com as promessas feitas para ela durante a Primeira Guerra e agora ela merecia retomar sua glória do passado. Hitler fará o mesmo na Alemanha afirmando que a derrota e humilhação dos alemães deveria ser 'vingada' e seu espaço vital ser retomado para si por direito.A crise e inflação esmagadoras dos anos 1930 vão fortalecer ainda mais esse sentimento. A reivindicação é um elemento presente no imaginário desses regimes que buscam a violência como forma 'legítima' de atingir seus objetivos.
Propaganda e Censura
Entenda-se Estado como o governo em si que concentra todos os poderes que controlam a nação como polícia, Forças Armadas, burocracia, economia. Por isso o termo é grafado com letra maiúscula sempre. Hitler se considerava o Estado, acima das pessoas que governava , da mesma forma que os antigos reis faziam.
Outra importante característica do totalitarismo é a propaganda e censura. Propaganda nada mais é do que promover as ideias do regime, a sua ideologia. Esses regimes totalitários precisam de uma ideologia para se mantiverem no poder e dar 'algo' para o povo acreditar e seguir como se fosse uma verdade que não pode ser questionada. Primeiro por ser convincente, a Alemanha teria sido humilhada então merece e tem que buscar revanche. Depois pela força da violência como coloca Arendt ''o totalitarismo é o amor à força''. Assim, a censura é um meio eficaz e poderosa de manter o povo e tudo aquilo que ele acredita sob controle do Estado,do governo,do líder.
Acaba-se a liberdade de expressão, acaba-se a democracia. Só é divulgado aquilo que o regime aprova e aceita como verdade. O Brasil teve um período durante a Era Vargas (1930-1945) em que houve censura e até um Departamento de Imprensa e Propaganda para controlar o que entrava em circulação em jornais e no rádio porém nada igual à violência sistemática dos regimes totalitários do fascismo, nazismo e o comunismo.
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| O ditador soviético Stálin |
Referências:
● Hanna Arendt- As Origens do Totalitarismo
● Eric Hobsbawm- A Invenção das Tradições
● Maria Lúcia Arruda Aranha- Filosofando:Introdução à Filosofia
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